Eu vou lhes contar em versos o que ninguém se deu contaPra que entre de ponta a ponta na alma de quem compreendePrincipalmente os que vendem depois de velho cansadoSangrando o lombo pisado daquele que lhe defendeEu me refiro ao cavalo que neste mundo modernoDepois de velho invernam vão vender pro saladeiroAmbição pelo dinheiro faz com que a alma apodreçaE o sentimento escureça traindo o fiel companheiroFalo eu porque aqui mesmo um carroceiro vizinhoCriou cinco ou seis negrinho no lombo de um alazãoPuxando inverno e verão tijolo, pedra e areiaE levando em lugar de aveia, só da-lhe sal por raçãoOs anos foram passando algo que tudo consomeA fraqueza, miséria e fome lhe transformou em carcaçaE não é que por desgraça um circo de diversãoCom tigre, pantera e leão armou-se abaixo da praçaA frente tinha uma placa escrita com letra-mãoCavalo, burros e cão compra e se paga no atoNão é que aquele mulato mais fera que o próprio leãoVendeu o pobre alazão por vinte mil, o ingratoE hoje vê-lo pela rua se apoiando num bastãoJá velho sem ilusão, cansado sem serventiaLembrando da covardia, do seu gesto desumanoPor trair quem tantos anos lhe deu o pão de cada dia.por nelson de campos